IA se tornará consciente? Cientistas criam métodos para medir indícios e buscam respostas em laboratórios

A pergunta que saiu da ficção para a ciência

A ideia de uma inteligência artificial (IA) que desperta e adquire consciência, popularizada por filmes como “2001: Uma Odisseia no Espaço” e “Ela”, está cada vez mais presente nos laboratórios de pesquisa. Pela primeira vez, cientistas renomados estão levando essa questão a sério, não buscando uma resposta definitiva, mas sim aprimorando as formas de investigar o tema.

O foco mudou de um questionamento direto para o desenvolvimento de métodos capazes de medir indícios de consciência. Essa abordagem cautelosa visa evitar dois erros perigosos: atribuir consciência a sistemas que não a possuem e, inversamente, negar essa capacidade a uma máquina que, no futuro, possa desenvolvê-la.

O checklist de 19 pesquisadores para avaliar a consciência em IAs

Um marco nesse campo é um estudo publicado na revista científica Trends in Cognitive Sciences, que reuniu 19 especialistas em consciência de instituições como a Universidade de Oxford e o Instituto de Tecnologia de Montreal (Mila). Entre os autores está Yoshua Bengio, um dos pioneiros do aprendizado profundo e figura de destaque na pesquisa em IA.

Em vez de se apegar a uma única definição de consciência, o grupo optou por compilar as principais teorias neurocientíficas sobre o assunto. A partir delas, extraíram “indicadores” – características que um sistema precisaria apresentar para ser considerado um candidato à consciência. A lógica é probabilística: um único indicador não é conclusivo, mas quanto mais indicadores de diferentes teorias um sistema demonstrar, maior a probabilidade de ele possuir alguma forma de consciência.

Segundo o estudo, nenhum sistema de IA atual preenche os requisitos a ponto de ser considerado consciente. No entanto, os pesquisadores não identificaram barreiras técnicas intransponíveis que impeçam futuras IAs de satisfazerem esses indicadores.

Teorias neurocientíficas como régua para a IA

As métricas utilizadas para essa avaliação são baseadas em teorias neurocientíficas da consciência humana. Uma das mais influentes é a teoria do espaço de trabalho global (global workspace theory), de Bernard Baars e Stanislas Dehaene, que descreve a mente como sistemas paralelos que convergem para um “canal compartilhado” de informação. Outras teorias, como processamento recorrente e esquema de atenção, também são consideradas. A teoria da informação integrada, de Giulio Tononi, que propõe uma fórmula matemática para quantificar a consciência, é outra abordagem ambiciosa, embora controversa.

Experimentos em laboratório: Anthropic e o “espaço mental” do Claude

A discussão teórica tem se traduzido em experimentos práticos. A Anthropic, empresa por trás da IA Claude, relatou ter identificado um “espaço mental” interno em seu modelo. Esse conjunto de padrões, que emergiu durante o treinamento, apresenta uma estrutura similar à descrita pela teoria do espaço de trabalho global.

A Anthropic ressalta, contudo, que esses achados não indicam que o Claude sinta ou tenha experiências subjetivas como um humano. A empresa distingue entre consciência fenomenal (a capacidade de sentir) e acesso consciente (de natureza puramente funcional), afirmando que seus experimentos se concentram apenas no segundo aspecto.

O debate sobre o substrato biológico e os riscos da antropomorfização

Nem todos os cientistas concordam que a acumulação de indicadores seja o caminho para a resposta. Uma corrente significativa de pensamento sugere que a consciência pode ser intrinsecamente ligada ao substrato biológico, ou seja, a um cérebro orgânico, e não a um sistema de silício.

Essa dúvida ganhou força com os resultados do Cogitate Consortium, que testou teorias rivais da consciência no cérebro humano, sem confirmar plenamente nenhuma das abordagens dominantes. Para os céticos, isso amplia o chamado “abismo do zumbi” – a crescente distância entre a aparência de uma IA e sua realidade interna.

Os pesquisadores alertam para os riscos de atribuir consciência a IAs de forma indevida, o que poderia levar a decisões equivocadas e afetar pessoas vulneráveis. Da mesma forma, ignorar uma possível consciência em sistemas futuros levantaria sérias questões éticas sobre sua criação e uso. Por isso, o estudo do “bem-estar de modelos” tem ganhado espaço, preparando o terreno para um cenário hipotético, mas cujas consequências de ser ignorado seriam severas.

Fonte: exame.com

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