O Pagador de Promessas: A Jornada Pioneira do Cinema Brasileiro Rumo ao Oscar e a Cannes
Em 1963, um ano marcado por eventos históricos como o assassinato de John F. Kennedy e a ascensão dos Beatles, o cinema brasileiro escreveu um capítulo memorável. Foi nesse ano que “O Pagador de Promessas”, dirigido por Anselmo Duarte, se tornou o primeiro filme nacional a ser indicado ao Oscar, competindo na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. Embora não tenha levado a estatueta para casa, o longa já havia previamente conquistado o prêmio máximo no Festival de Cannes de 1962: a Palma de Ouro, um feito inédito e até hoje único para uma produção brasileira.
Uma Promessa que Desafiou Dogmas e Dividiu Opiniões
A trama de “O Pagador de Promessas” gira em torno de Zé do Burro (interpretado por Leonardo Villar), um homem simples do interior que, em gratidão pela recuperação de seu burro Nicolau após um raio, se compromete a carregar uma pesada cruz de madeira até Salvador. Sua jornada é acompanhada por sua esposa, Rosa (Glória Menezes). Ao chegar à capital baiana, o cumprimento da promessa se torna um embate com a Igreja Católica, que proíbe a realização de um voto feito em um terreiro de candomblé, desencadeando um conflito que expõe o choque entre a fé popular, as tradições religiosas afro-brasileiras e os dogmas institucionais.
Adaptação Genial e Recepção Controversa
Baseado na aclamada peça de Dias Gomes, um dos maiores dramaturgos brasileiros, o filme foi uma adaptação ousada que capturou a essência da obra original com fidelidade. A direção de Anselmo Duarte, que até então era conhecido como ator, foi fundamental para o sucesso do longa. No entanto, “O Pagador de Promessas” não foi unanimidade no Brasil. Enquanto recebia aclamação internacional, o movimento Cinema Novo, em ascensão na época e defensor de uma estética mais experimental e politizada, criticou o filme por suas influências clássicas e comerciais. Glauber Rocha, um dos expoentes do Cinema Novo, apesar de ter colaborado brevemente na produção, tornou-se um dos críticos mais ferrenhos da obra.
A Curiosa História da Palma de Ouro Brasileira
A conquista da Palma de Ouro em Cannes rendeu a “O Pagador de Promessas” uma recepção triunfal no Brasil, com direito a desfile público. Uma peculiaridade dessa vitória é o destino do troféu. A Palma de Ouro, feita de ouro maciço, permaneceu guardada por mais de uma década em um cofre na prefeitura de Salto, cidade natal de Duarte, no interior de São Paulo. Sem que ninguém soubesse a senha, o cofre foi arrombado em 2022, mais de dez anos após o falecimento do diretor. Atualmente, uma réplica do prêmio, com um dos “dedos” da folha quebrado – assim como o original, que foi danificado quando Duarte o derrubou –, está exposta no Centro de Cultura de Salto.
Um Marco na História do Cinema Nacional
Antes de “O Pagador de Promessas”, o Brasil já havia tido participações no Oscar, mas em produções estrangeiras ou com elementos nacionais. A canção “Rio de Janeiro” (1945) e o filme “Orfeu Negro” (1960), uma coprodução com França e Itália que venceu Melhor Filme Estrangeiro, são exemplos. “A Morte Comanda o Cangaço” (1961) também chegou a ser inscrito, mas sem indicações. “O Pagador de Promessas” se consolidou, portanto, como a primeira produção verdadeiramente nacional a desbravar o cenário internacional, abrindo caminho para futuras conquistas e consolidando a importância do cinema brasileiro no cenário mundial.
Fonte: super.abril.com.br
