Moradores de Periferias de SP Sofrem com ‘Fiozinho de Água’ e Cortes Constantes
Regiões mais altas e afastadas da capital paulista enfrentam escassez de água, forçando adaptações drásticas na rotina familiar e gerando revolta pela desigualdade no abastecimento.
A falta d’água se tornou uma rotina angustiante para moradores de áreas periféricas de São Paulo. Em bairros como Vila Maria Alta, a escassez se intensificou a partir de dezembro, forçando famílias a improvisar e adaptar seus dias à incerteza do fluxo nas torneiras. Regiane Gomes de Souza, moradora da Vila Maria Alta, relata a dificuldade em realizar tarefas básicas após as 20h: “Ficavam dois ambientes sem água: na torneira da pia da cozinha e no banheiro. Ficamos sem água para poder escovar os dentes. No período noturno, você quer tomar um banho para descansar e não tem água.” Para contornar a situação, Regiane passou a guardar água em jarras para higiene pessoal e para dar descarga.
Gestão Deliberada da Escassez pela Sabesp
Amauri Pollachi, especialista em recursos hídricos e conselheiro do Ondas, aponta que a situação não é um acaso, mas sim uma “gestão da oferta” promovida pela Sabesp. Segundo ele, a companhia tem reduzido o fornecimento de água por cerca de 10 horas diárias, afetando principalmente as populações que residem em locais mais altos e distantes dos reservatórios. Mesmo quando o fornecimento é restabelecido, a pressão é insuficiente, resultando no chamado “fiozinho de água”, insuficiente para o consumo básico.
Seletividade no Abastecimento e Injustiça Social
A crise hídrica expõe uma clara seletividade no fornecimento de água. Pollachi denuncia que a Sabesp prioriza o abastecimento contínuo para consumidores de maior poder aquisitivo, localizados em áreas nobres, garantindo o lucro da empresa, especialmente após sua privatização. “Essa seletividade está muito clara porque, a partir do momento que você tem o grande consumidor e aqueles consumidores de maior poder aquisitivo com o fornecimento garantido, você não reduz a arrecadação”, afirma o especialista. As prefeituras, segundo ele, têm sido omissas diante do problema.
Impacto nas Periferias e Aumento das Contas
Regiões como Mauá, Brasilândia, Jardim Ângela, Grajaú, Guaianases e Osasco enfrentam dificuldades semelhantes. A professora Maria Cristina, moradora do Butantã, relata que os cortes são constantes desde o início do ano passado, com períodos de falta d’água durante o dia inteiro. O paradoxo da crise é agravado pelo aumento nas contas de água, mesmo com a redução no fornecimento. “Então, além de ficarmos sem água, sem estratégia e sem organização, ainda por cima o valor da conta subiu bastante”, desabafa.
Perspectiva Sombria e Medidas da Sabesp
Amauri Pollachi adverte que o cenário tende a piorar, com a possibilidade de a Sabesp aumentar o período de racionamento para 14 ou 16 horas diárias. Procurada, a Sabesp informou que, devido à estiagem, altas temperaturas e baixo nível dos mananciais, está adotando a redução da pressão da água no período noturno, das 19h às 5h, em toda a Região Metropolitana de São Paulo, desde 27 de agosto. A medida é preventiva e temporária, visando preservar os reservatórios. A companhia ressalta que imóveis com caixa-d’água sentem menos os efeitos e que o uso consciente da água é fundamental. A Sabesp afirmou ter normalizado o abastecimento na casa da moradora do Butantã e que fará uma vistoria na Vila Maria Alta.
Fonte: www.brasildefato.com.br
