Devastação na Patagônia e Acusações Contra o Governo
Incêndios de grandes proporções devastam a Patagônia argentina, consumindo mais de 12 mil hectares de florestas, pastagens e propriedades. Em meio à catástrofe ambiental, que já é considerada o pior desastre ecológico da região nos últimos 20 anos, o governo do presidente Javier Milei e aliados locais, como o governador de Chubut, Ignacio Torres, têm direcionado acusações a comunidades mapuches, sugerindo seu envolvimento em ações criminosas. O Ministério da Segurança chegou a afirmar que os focos poderiam estar ligados a “grupos violentos” e prometeu investigar “possíveis vínculos com organizações extremistas”. No entanto, o fiscal Álvaro Yañez declarou à imprensa local não haver indícios que conectem os povos originários ao início dos incêndios.
Ofensiva Contra Povos Originários e Despojo Territorial
Organizações populares e lideranças indígenas denunciam que a retórica oficial faz parte de um plano maior de despojo territorial. Segundo as denúncias, o objetivo seria enfraquecer a presença dos povos originários em regiões estratégicas, abrindo caminho para interesses de mineração, fracking, especulação imobiliária e privatização de recursos naturais. “O que estamos vendo é a tentativa de apagar não só a floresta, mas também a nossa forma de vida”, afirma a liderança mapuche Moira Millán. Ela relata que, em vez de apoio, comunidades que perderam tudo para o fogo têm sofrido operações policiais e repressão, como no caso da comunidade Pulgar Huentuquidel, que teve celulares e documentos apreendidos.
Resistência e Solidariedade em Meio às Chamas
Contrariando as acusações, as comunidades mapuches têm atuado na linha de frente do combate aos incêndios, muitas vezes sem o suporte adequado do Estado. Cortes significativos nos orçamentos para prevenção e combate a incêndios, promovidos pelo governo Milei desde 2024, forçaram vizinhos, brigadistas voluntários e membros de povos originários a criar redes de solidariedade para proteger casas, animais e áreas naturais. “Quem está apagando o fogo somos nós”, resume Adrián de Gracia, um brigadista voluntário da região. Ele ressalta que os mapuches estão sempre nas áreas mais remotas, onde o fogo surge primeiro, salvando os territórios com as próprias mãos e sendo alvo de acusações insustentáveis.
Disputa Territorial e Legado Ancestral Ameaçado
Para Moira Millán, a criminalização dos mapuches serve para facilitar a exploração da Patagônia, onde megaprojetos de mineração, energia e turismo de luxo avançam com apoio governamental. A revogação da Lei de Terras de 2011 e a desvalorização de leis de proteção ambiental, como a Lei de Bosques Nativos, fragilizam a defesa dos territórios. A Patagônia, lar de alerces milenares e ecossistemas considerados patrimônio da humanidade, é descrita por Millán como “tão importante quanto a Amazônia”. A destruição ambiental é vista também como um ataque cultural e civilizatório, ameaçando um legado espiritual e ancestral de profunda conexão com a terra. “Não temos medo do fascismo argentino ou chileno. Temos medo de não cumprir o mandato dos nossos ancestrais: proteger o território”, conclui Millán, apelando por solidariedade internacional.
Fonte: www.brasildefato.com.br
