Mãe Zana de Odé: ‘Meu povo está perdendo o medo’ no combate à intolerância religiosa

Resistência e superação do medo marcam o Dia do Combate à Intolerância Religiosa

Em meio às celebrações e reflexões do Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, a voz de Mãe Zana de Odé, Ialorixá do Ilê Asé Odé Ibualamo, ressoa com força e esperança. “O meu povo está perdendo o medo. Nossos ancestrais morreram calados por conta do medo. Nós não temos mais medo. A gente vai enfrentar esse sistema racista e fascista. A gente está enfrentando”, declarou, em entrevista ao jornal Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato.

A luta pela preservação do sagrado e a memória soterrada

A fala de Mãe Zana ganha contornos ainda mais significativos ao relembrar a demolição de seu terreiro em 2022, em Carapicuíba, na Grande São Paulo. O local, que abrigava mais de 30 anos de história e era o centro de uma comunidade com origens banto e iorubana, foi demolido após uma ação de reintegração de posse movida pela prefeitura. O caso ganhou notoriedade quando, em 2024, o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) alertou sobre a importância de preservar o sítio devido a achados arqueológicos da cultura afro-brasileira. “Lá, foram soterrados diversos patrimônios nossos, do povo negro brasileiro. Hoje está debaixo daquela massa asfáltica. Inclusive a carta de alforria de meu avô”, lamentou a Ialorixá.

Diálogo negado e desenvolvimento excludente

A prefeitura justificou a demolição pela necessidade de obras de canalização de um córrego. Representantes do terreiro, no entanto, identificaram vestígios arqueológicos em uma vasta área. “Nós nunca fomos contra o desenvolvimento urbano. O que a gente sempre pediu é que a gente fizesse parte dele. Propusemos várias formas de desenvolver aquele lugar, promover a melhoria da mobilidade, e nunca fomos ouvidos”, criticou Mãe Zana, evidenciando a falta de diálogo e a exclusão sentida pela comunidade.

Intolerância religiosa: um alvo racializado e periférico

Mãe Zana é enfática ao afirmar que a intolerância religiosa no Brasil possui alvos claros: pessoas negras, com destaque para as mulheres. “Temos uma forma própria de viver, e isso incomoda. Quando falam em intolerância religiosa, isso tem a ver com a cor das pessoas que estão sofrendo essa intolerância. São pessoas negras e da periferia. Pessoas que têm suas crenças, sua fé, diferente daquilo que está estabelecido para essa sociedade e esse sistema”, explicou.

Cobrança por ações concretas e diálogo com o poder público

Para reverter esse cenário de intolerância e exclusão, a Ialorixá clama por um diálogo mais efetivo e ações concretas por parte do poder público. “O Ministério Público Federal precisa nos ouvir. O Ministério da Igualdade Racial precisa compreender que não basta apenas postar frases bonitas na rede social. Precisa ter, efetivamente, programas que atendam nossa demanda, que é a ocupação territorial”, concluiu, reforçando a necessidade de políticas públicas que reconheçam e valorizem a diversidade religiosa e cultural do Brasil.

Fonte: www.brasildefato.com.br

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