O orçamento do Ministério da Defesa para 2025 revela uma profunda distorção estrutural: quase metade dos recursos autorizados foi direcionada para o pagamento de militares inativos e pensionistas. Dos R$ 133,65 bilhões previstos, R$ 118,66 bilhões foram executados, sendo que R$ 56,09 bilhões (aproximadamente 42% do total) foram destinados exclusivamente a esses compromissos previdenciários.
Gastos com Pessoal Dominam Orçamento da Defesa
O programa “Gestão e Manutenção do Poder Executivo” consumiu R$ 103,43 bilhões, 87% do gasto total da pasta. Dentro deste montante, os pagamentos a militares da ativa totalizaram R$ 31,68 bilhões. Somados, ativos, inativos e pensões militares representaram cerca de R$ 87,78 bilhões, correspondendo a aproximadamente 74% de toda a despesa executada em 2025. Essa concentração em despesas com pessoal limita severamente a capacidade de investimento em ações operacionais, modernização de estruturas e políticas estratégicas.
Investimentos Estratégicos e Gestão de Desastres em Segundo Plano
Em contraste com os vultosos gastos com pessoal, áreas cruciais para o país foram relegadas a um segundo plano orçamentário. Programas de gestão de risco e desastres, essenciais em um país com eventos climáticos extremos recorrentes, receberam apenas R$ 498,1 milhões, menos de meio bilhão de reais, o que representa cerca de 0,4% do total executado pelo ministério. A função “Defesa Nacional”, responsável pelas atividades finalísticas da pasta, registrou R$ 11,5 bilhões, um valor significativamente menor do que o destinado a despesas previdenciárias militares.
Especialistas Alertam para Rigidez e Ineficiência do Gasto
Especialistas em defesa e orçamento militar apontam que essa rigidez orçamentária, marcada pela predominância de despesas obrigatórias, é um padrão observado em anos anteriores. Ananias Oliveira, pesquisador da área de estudos militares, destaca que o Brasil difere do padrão da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), onde o gasto com pessoal representa uma parcela menor do orçamento. Em 2023, por exemplo, cerca de 85% do orçamento das Forças Armadas foram consumidos por pessoal, com apenas 5% destinados a investimentos. Oliveira critica a demanda constante por mais orçamento sem um compromisso com a eficiência e o perfil do gasto.
Cultura Institucional e Prioridades Orçamentárias Questionadas
Piero Leirner, antropólogo e pesquisador das relações civis-militares, aponta uma “lógica institucional fechada” e uma “cultura militar” que privilegia a preservação do próprio grupo e de seus valores, mesmo em detrimento de mudanças estruturais. Ele critica o elevado número de oficiais-generais no Brasil (396 em 2025) e a falta de repensamento estrutural do desenho das Forças Armadas. Leirner defende que o foco quase exclusivo na força terrestre não dialoga com os desafios contemporâneos do país, como a vulnerabilidade da costa, e que a discussão orçamentária precisa ir além da simples ampliação de recursos, questionando “como se gasta e para manter qual desenho de força”.
Fonte: www.brasildefato.com.br
