Freud, Lacan e o Fumo: Como a Psicanálise Explica a Angústia do Pai Diante da Morte na UTI

O Cachimbo na Janela: Um Ritual de Angústia

A lembrança de um pai fumante, frequentando a UTI onde a mãe faleceu, evoca uma conexão profunda com os ensinamentos de psicanalistas como Freud e Lacan. O ato de fumar, repetido por anos naquele ambiente de sofrimento, torna-se um portal para a compreensão de mecanismos psíquicos complexos.

Freud e o Ato Sintomático: O Cigarro Como Expressão do Inconsciente

Ao revisitar obras como “Psicopatologia da vida cotidiana” e “Recordar, repetir e elaborar”, o autor percebe como os conceitos freudianos se encaixam na cena vivida. Expressões como “afeto doloroso”, “material inconsciente” e “atos sintomáticos” ganham vida ao observar o pai tentando lidar com a angústia e a perda. Freud nos ensina que o sujeito, por vezes, “não recorda absolutamente o que foi esquecido e recalcado, mas sim o atua”. O cigarro, nesse contexto, pode ter sido uma forma de “atuar” o luto e a dor, em vez de confrontá-los diretamente.

Lacan e a História do Sujeito: O Fumo Como Discurso Velado

Com Lacan, a análise se aprofunda. A “amnésia do recalque” como forma de memória e a “história” do sujeito como definidora de sua identidade trazem novas perspectivas. O ato de fumar, para Lacan, poderia ser interpretado como um “discurso bem-sucedido” do inconsciente, uma maneira de “despistar a censura” e lidar com a “historicidade” da perda. As palavras, neste caso, seriam substituídas pelo gesto repetitivo e pelo aroma do tabaco.

A Intermediação da Morte e a Humanidade Compartilhada

A finitude da vida, vivida intensamente naquelas visitas à UTI, ressalta a condição humana. O pai, carregando talvez o “espectro da morte” em seu bolso, e o autor, com sua “camisa sem bolso”, em uma referência velada à obra de Magritte, encontram na experiência da perda um elo comum. A morte da avó, dez meses após a do pai, reforça a cyclicalidade da vida e a inevitabilidade do luto. O convite final para fumar, à beira da janela, simboliza a aceitação dessa humanidade e a continuação do ritual, agora com uma nova camada de significado psicanalítico.

Fonte: www.congressoemfoco.com.br

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