Corte irrisório na Selic e a crítica ao sistema financeiro
O Comitê de Política Monetária (Copom) do Brasil anunciou uma redução de apenas 0,25 ponto percentual na taxa Selic, que agora se encontra em 14,75% ao ano. Essa decisão, tomada em um contexto de pressões de caminhoneiros e aumento do preço do diesel, gerou críticas de economistas que apontam para uma possível subordinação da política econômica aos interesses do setor financeiro.
Em entrevista ao programa Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o economista Paulo Kliass classificou a redução como “uma migalha”, um valor que “não influencia em absolutamente nada”. Segundo ele, o ponto crucial que afeta a população é o spread bancário, a diferença entre os juros que os bancos pagam e os que cobram, que permanece “elevadíssimo”. Kliass lamenta que o Banco Central “há anos faz cara de paisagem” diante dessa questão.
Falta de ação e o legado de decisões passadas
Kliass relembra que, apesar de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter nomeado todos os diretores atuais do Banco Central, incluindo o presidente Gabriel Galípolo, a instituição não demonstra uma mudança significativa em sua abordagem econômica, mesmo diante de uma guerra que afeta diretamente os preços dos combustíveis.
O economista critica a lentidão do processo de redução da taxa básica de juros. “Se tivesse baixado 1% a cada reunião, já estaríamos na faixa de 7% ou 8%, o que seria razoável”, afirma. Ele ressalta que, em vez disso, Galípolo chegou a aumentar a Selic, e Kliass argumenta que, neste momento, “não tem como culpar (o ex-presidente Jair) Bolsonaro ou (o ex-presidente do Banco Central Roberto) Campos Neto”. O Brasil, segundo ele, gasta mais de R$ 1 trilhão em juros anualmente, uma “loucura” que evidencia a priorização da rentabilidade financeira em detrimento do crescimento e desenvolvimento do país.
Propostas para uma política econômica mais eficaz
Para Kliass, são necessárias duas medidas fundamentais para reverter o quadro atual. Primeiramente, uma redução expressiva e efetiva da Selic, “não com migalhas”. Em segundo lugar, o Banco Central deve assumir seu papel de regulador e fiscalizador do sistema financeiro, limitando o spread bancário, que chega a mais de 400% no caso do cartão de crédito rotativo.
Uma terceira via apontada pelo economista é o uso estratégico dos bancos públicos. “A Caixa, o Banco do Brasil, o Banco do Nordeste, todos poderiam baixar seus spreads e forçar a concorrência”, sugere. Ele relembra a iniciativa da presidente Dilma Rousseff com a campanha “Vem para a Caixa você também”, mas aponta que a pressão de bancos privados e da mídia levou ao recuo da medida. Kliass conclui que a população não sente os benefícios de outras ações governamentais, como o aumento do salário mínimo, pois o poder de compra já está comprometido com dívidas, indicando a necessidade de uma revisão integrada da política econômica.
Guerra, petróleo e a necessidade de soberania econômica
Abordando o reajuste do diesel, Kliass critica a Petrobras e a postura dos governadores em relação à redução de impostos. Ele vê o aumento de R$ 0,38 nas refinarias, em meio à ameaça de greve dos caminhoneiros, como uma tática da direita para pressionar o governo em ano eleitoral, especialmente porque o governo federal já zerou o PIS/Cofins e ofereceu subvenção, mas os estados não cederam no ICMS.
O economista defende que o Brasil tem condições de se proteger das oscilações externas de preços dos combustíveis. “Não precisamos ficar reféns das oscilações especulativas do mercado internacional ou de guerras como esta contra o Irã”, argumenta. Ele ressalta que a Petrobras, como empresa pública, deveria servir ao projeto nacional de desenvolvimento e não ao lucro de acionistas privados.
Kliass também aponta as vendas de refinarias e da BR Distribuidora no governo Bolsonaro como prejudiciais, tornando o país mais vulnerável. Ele exemplifica que a privatização de refinarias em regiões mais afastadas, como Rio Grande do Norte, Bahia e Amazonas, impediu que a Petrobras atuasse na redução de desigualdades locais. “Foram vendidas a preço de banana”, lamenta. A perda da capacidade de regular preços na ponta, como no caso do Amazonas, onde o preço do combustível é “um absurdo”, é uma consequência direta dessa lógica.
Em um apelo final ao governo, Kliass enfatiza a gravidade do momento e a necessidade de negociar com os caminhoneiros, cancelar o aumento do diesel e utilizar a Petrobras como instrumento de política pública. Caso contrário, ele adverte, o governo “vai entregar de bandeja para a oposição uma pauta que pode unificar o descontentamento e comprometer a reeleição”.
Fonte: www.brasildefato.com.br
