Renovação Técnica e Conteúdo Afrobrasileiro
A Marquês de Sapucaí se prepara para um carnaval com inovações que vão além da estética. Segundo o comunicador e historiador Paulo Alcantara, a evolução tecnológica, como a iluminação cênica pensada para valorizar as fantasias e o controle milimétrico dos ensaios, tem transformado a experiência visual do espetáculo. No entanto, é no conteúdo dos enredos que Alcantara observa a mudança mais significativa: uma afirmação cada vez mais forte da identidade negra e da ancestralidade africana.
Orixás na Avenida: Resgate e Representatividade
A representação de divindades africanas, como Exu e Logun Edé, tem ganhado destaque. Alcantara ressalta que, historicamente, houve um processo de “embranquecimento” das imagens de orixás, como Iemanjá, para serem mais aceitas. “Hoje a gente sabe que ela não é assim”, afirma, celebrando a busca por representações mais fiéis às raízes africanas.
O comunicador lembra que o medo de abordar figuras como Exu, muitas vezes erroneamente associado ao diabo, foi superado. “Exu é o orixá da comunicação”, pontua. A virada, segundo ele, começou com o enredo campeão da Grande Rio em 2022, que celebrou Exu, abrindo caminho para outros temas afrocentrados.
Homenagens e Conexão com a Ancestralidade
Além dos orixás, o carnaval deste ano é marcado por homenagens a personalidades negras e à cultura popular. Escolas como Beija-Flor, Mocidade, Imperatriz Leopoldinense, Niterói e Viradouro trazem em seus enredos tributos a figuras importantes, conectando o público com a história e a arte brasileira.
Alcantara destaca sambas-enredo que celebram a obra de Carolina Maria de Jesus, a cultura do Candomblé e a ancestralidade africana, como exemplos de temas que “nos conectam com nossa ancestralidade”. Para ele, a profusão de temas afrocentrados não é um modismo, mas um resgate histórico fundamental, especialmente considerando que o Brasil tem uma população majoritariamente negra e mestiça.
O Legado das Comunidades e a Corte Africana
O historiador enfatiza que as escolas de samba nasceram em comunidades, como grêmios recreativos que promoviam cultura, assistência e aprendizado de práticas como capoeira e jongo. “Nossa ancestralidade é matriarcal”, afirma. Ele questiona a predominância de temas europeus em desfiles passados, como os frequentemente abordados por Rosa Magalhães, e defende o conhecimento da “corte africana”.
“Tá na hora da gente conhecer a nossa história, a nossa trajetória e de onde viemos. África não é um país, é um continente. Não é tudo a mesma coisa”, conclui Alcantara, reforçando a importância de celebrar e compreender a riqueza e diversidade das culturas africanas no carnaval brasileiro.
Fonte: www.brasildefato.com.br
