Candidatura de Caiado é ‘venda’ para o campo bolsonarista, avalia cientista político

Movimentação eleitoral e a lógica do centrão

A oficialização da candidatura do governador de Goiás, Ronaldo Caiado (União Brasil), pelo PSD, reacendeu o debate sobre o papel do centrão nas eleições presidenciais de 2026. Para o cientista político Rudá Ricci, a movimentação revela mais sobre a lógica de sobrevivência do bloco fisiológico do que sobre uma disputa real pelo Planalto.

“Todo mundo que sai candidato sem nenhuma chance, ele sai para vender”, afirma Ricci. Segundo ele, a “venda” não se resume ao apoio ele, mas inclui verbas para as bancadas que se deseja eleger, prática comum na política brasileira.

Dupla função da candidatura de Caiado

Ricci aponta que a candidatura de Caiado cumpre duas funções principais. A primeira é tentar ocupar um espaço no campo bolsonarista, atualmente dividido entre lideranças como Nikolas Ferreira e Tarcísio de Freitas. A segunda é fortalecer a direita no Centro-Oeste, região onde Caiado possui sua base eleitoral.

No entanto, o cientista político relembra o histórico de Caiado em disputas presidenciais. Em 1989, ele obteve apenas 0,67% dos votos, mesmo com forte apoio do agronegócio e da UDR. “Portanto, ele não tem muito espaço. A questão aqui é realmente de vender o apoio pro segundo turno”, ressalta Ricci.

O perfil do centrão e as divisões internas

Ricci descreve o centrão como uma mistura de lideranças ligadas à tradição da Arena, partido da ditadura militar, e o “baixo clero clientelista”, focado em recursos para suas bases eleitorais e na própria reeleição. Esses deputados, segundo ele, raramente têm expressão pública, mas detêm grande peso nos municípios.

Esse pragmatismo, na visão de Ricci, levará a um racha no apoio à candidatura de Caiado. “Quase ninguém vai apoiar a candidatura do Caiado. Uma parte vai para a extrema direita por causa dessa linhagem tradicional da Arena. Mas uma parte vai para o Lula, eu não tenho dúvida nenhuma”, prevê. Ele argumenta que, ao perceberem a possibilidade de reeleição de Lula, parte do centrão buscará negociações para obter benefícios, como recursos financeiros ou cargos ministeriais.

Padrão de 1989 e os erros dos Bolsonaro

O cientista político identifica um padrão nas movimentações da direita para 2026 que se assemelha às eleições de 1989, quando diversas candidaturas de direita surgiram com a crença de que o apoio se consolidaria no segundo turno. “O problema é que eles não ganham”, pontua.

Ricci também comentou a atuação dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro. Sobre Eduardo Bolsonaro, que gravou um vídeo que poderia violar condições de prisão domiciliar de Jair Bolsonaro, Ricci avalia como um “erro gravíssimo, não só político, mas jurídico”. Em relação a Flávio Bolsonaro, que discursou sobre a importância do Brasil para os EUA, o cientista critica o “entreguismo da família”.

“É um pessoal despreparado. Eles são despreparados, eles não conseguem ter habilidade política”, conclui Ricci sobre os irmãos Bolsonaro, afirmando que eles “começam a ganhar volume” e, em seguida, “trocam os pés pelas mãos”. Apesar dos erros, ele pondera que ainda há tempo para ajustes, pois a campanha eleitoral está longe de começar, mas o início foi “muito mal” para a família Bolsonaro.

Fonte: www.brasildefato.com.br

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