O Paradoxo da Prevenção no Brasil
O câncer de colo do útero representa um dos maiores paradoxos da saúde pública brasileira. Com causas conhecidas, tecnologias de prevenção disponíveis no Sistema Único de Saúde (SUS) e uma meta global de eliminação pela Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil ainda registra cerca de 17 mil novos casos e entre 7 mil e 8 mil mortes anualmente. Este cenário alarmante não se deve à falta de recursos, mas sim a falhas persistentes na organização do cuidado, na comunicação com a população e na dificuldade do sistema em alcançar as mulheres em maior risco.
Limitações do Papanicolau e a Esperança do Teste de HPV
Por cerca de 50 anos, o programa nacional de rastreamento tem se baseado no exame citopatológico, o Papanicolau. Embora tenha contribuído para a redução da incidência da doença, seu impacto na mortalidade tem sido limitado. Na prática, o Papanicolau beneficiou principalmente mulheres que já acessam regularmente os serviços de saúde, enquanto aquelas em maior vulnerabilidade, que enfrentam barreiras sociais, territoriais e institucionais, continuam a chegar aos hospitais com a doença em estágio avançado. A incorporação do teste de DNA do HPV ao SUS em 2023 surge como um avanço significativo. Essa nova tecnologia identifica a presença do vírus HPV de alto risco antes mesmo do surgimento de lesões, permitindo uma detecção mais precoce e a estratificação do risco. Além disso, a possibilidade de autocoleta com o teste de HPV pode ampliar o alcance em áreas historicamente desassistidas.
Desafios na Implementação e a Busca Ativa
A simples introdução de uma nova tecnologia não garante o sucesso. A eficácia do teste de DNA do HPV na redução da mortalidade dependerá intrinsecamente da organização do cuidado, da busca ativa das mulheres nunca rastreadas e de uma comunicação clara sobre a importância do exame. A vacinação contra o HPV, disponível gratuitamente desde 2014, é a base da prevenção primária, mas não elimina o risco para mulheres adultas já expostas ao vírus. Portanto, o rastreamento continua sendo uma estratégia complementar indispensável. Sem uma implementação cuidadosa e focada nas populações mais vulneráveis, corre-se o risco de repetir as limitações do modelo anterior.
O Caminho para a Eliminação: Enfrentando Desigualdades
A eliminação do câncer de colo do útero é uma meta alcançável para o Brasil. Cerca de 60% dos diagnósticos ocorrem em estágios avançados, evidenciando desigualdades persistentes no acesso à prevenção e ao cuidado. Para transformar a oferta em acesso real, é fundamental integrar sistemas de informação, organizar o rastreamento de forma ativa e sustentada, e enfrentar as desigualdades estruturais que perpetuam uma doença evitável como causa de morte. O foco deve ser em garantir que tanto a vacinação quanto o rastreamento cheguem efetivamente às mulheres que historicamente ficaram à margem do sistema de saúde.
Fonte: super.abril.com.br
