Arqueólogo Eduardo Neves sonha com aliança entre ciência e povos amazônicos para construir um futuro sustentável

Amazônia: Um Mosaico Histórico em Vez de Natureza Intocada

Após quase quatro décadas de imersão na Amazônia, o arqueólogo Eduardo Góes Neves, diretor do Museu de Arqueologia e Etnologia da USP (MAE-USP), desmistifica a ideia de uma floresta selvagem e intocada. Segundo Neves, a Amazônia que conhecemos hoje é, em grande parte, resultado de milênios de intervenção humana e tecnologias ancestrais. “A floresta que hoje chamamos de natureza, também é história”, afirma. Ele lamenta que a visão predominante de uma Amazônia vazia e inóspita serviu de justificativa para projetos de desenvolvimento predatórios, perpetuando um colonialismo interno que ainda afeta a região.

Evidências Arqueológicas Revelam Populações Milenares

Neves destaca que a história indígena da Amazônia é profunda e que a reconstrução desse passado deve ser feita em conjunto com as populações que habitam os territórios. Evidências científicas e arqueológicas comprovam a presença de vastas populações na região antes da chegada dos europeus, estimadas entre 8 e 10 milhões de pessoas. Mais de 10 mil sítios arqueológicos já foram catalogados, revelando a existência de solos férteis criados artificialmente, as chamadas terras pretas, e o cultivo de espécies como o açaí e a castanha, que moldaram a paisagem amazônica.

Lições Ancestrais para um “Bem Viver” Contemporâneo

O arqueólogo defende uma aliança entre arqueólogos e populações tradicionais para gerar conhecimento que auxilie na construção de modos de vida mais sustentáveis no presente. Ele contrapõe os sistemas agrícolas contemporâneos, focados em monocultura e controle rígido, com os sistemas agroecológicos ancestrais, que valorizam a diversidade, a abertura e a interconexão com outros seres vivos. “Uma roça bonita é aquela onde a gente vê passarinhos, ouve os insetos. É uma roça alegre, tem vida”, exemplifica, citando uma definição de mulheres Wajãpi. Essa perspectiva, segundo Neves, é fundamental para repensar o conceito de “bem viver” em contraste com a lógica do agronegócio.

Cidades Amazônicas: “Florestar” o Presente para um Futuro Sustentável

Neves aponta para a existência de cidades indígenas antigas na Amazônia, planejadas em harmonia com o ambiente. A ideia de “florestar as cidades” surge como uma provocação necessária diante da crise climática. Ele sugere que cidades amazônicas como Belém, intrinsecamente ligadas à água, devem dialogar com essa vocação, em vez de tentar controlá-la. A lição é clara: é preciso prestar atenção à paisagem e integrar a natureza aos espaços urbanos, um aprendizado que, segundo ele, não exige inovação tecnológica, mas sim escuta e “letramento paisagístico”. O arqueólogo lamenta que cidades como Manaus e São Paulo tenham se distanciado de seus rios e igarapés, herdando um urbanismo que ignora as características tropicais e aquáticas de seus territórios.

O Desafio Econômico: Lucro ou Sobrevivência?

Diante da encruzilhada civilizatória, Neves questiona a sustentabilidade de um modelo econômico focado unicamente no lucro. Ele reconhece a importância do agronegócio para a economia brasileira, mas critica sua má distribuição de riqueza e os altos custos socioambientais. Para ele, sistemas de produção baseados na cooperação e na valorização da vida, em vez da exploração da natureza como mera fonte de renda, são um imperativo para o futuro. “Não consigo ver esse sistema de produção baseado na concentração de renda e na grande escala da monocultura como algo que seja sustentável nas próximas décadas”, sentencia. A crise hídrica e os eventos climáticos extremos são alertas claros de que um “reset” na relação com o país tropical é urgente.

Um Sonho de Alianças e Democracia para a Amazônia

O arqueólogo sonha com uma Amazônia onde a destruição e a violência cessem, onde o garimpo ilegal e o narcotráfico sejam erradicados. Ele anseia por uma democracia plena no Brasil, com participação popular efetiva e o fortalecimento das comunidades indígenas e tradicionais. “Eu sonho como arqueólogo com uma Amazônia onde a gente consiga, cada vez mais, fazer uma aliança entre arqueólogas, arqueólogos, populações tradicionais, povos indígenas”, conclui, reforçando a crença de que o conhecimento ancestral, aliado à ciência, é a chave para aprender com o passado e construir um presente e um futuro mais justos e sustentáveis.

Fonte: www.brasildefato.com.br

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