Ariana Gomes: A quebradeira de coco mestra em antropologia que defende a identidade como raiz da luta por território

Raízes profundas na terra e no coco

Ariana Gomes, 37 anos, carrega em si a força e a sabedoria de gerações de mulheres que encontraram na palmeira de coco babaçu não apenas sustento, mas uma identidade. Nascida e criada na comunidade rural de Ludovico, em Lago do Junco (MA), Ariana se define primeiramente como quebradeira de coco babaçu. “Negar uma identidade é negar o seu passado. Primeiro eu sou a Ariana quebradeira de coco, depois eu sou as outras coisas”, afirma com convicção.

A relação com a palmeira de babaçu é profunda e de reciprocidade. Dela, extrai-se não só a amêndoa para consumo e venda, mas também o mesocarpo para farinha, a casca para carvão e as palhas para artesanato e construção. “A gente tem essa relação de reciprocidade com a palmeira. Ela dá todo esse fruto, todos esses benefícios pra gente, mas, em contrapartida, a gente precisa cuidar dela”, explica Ariana.

A luta ancestral pela terra e pelo babaçu livre

Ariana Gomes é herdeira de uma luta histórica das quebradeiras de coco babaçu pela garantia dos babaçuais livres e em pé. Desde os anos 1970, o acesso a essas áreas, essenciais para a subsistência de milhares de famílias camponesas, indígenas e quilombolas, vem sendo cerceado por elites políticas e agrárias. A expansão de monocultivos e pastagens sobre terras tradicionais resultou em violência, cercamentos e derrubadas dos babaçuais.

Graças à resistência e organização das quebradeiras, que entoam o xote “Ei, não derruba esta palmeira. Ei, não devore os palmeirais”, leis estaduais e municipais foram conquistadas, proibindo a derrubada das palmeiras e garantindo o livre acesso a elas. Ariana, ainda criança, já aparecia em registros documentais ao lado das mulheres mais velhas, demonstrando a força desde cedo.

Do chão de terra à academia: um mestrado com revolta e pertencimento

A trajetória acadêmica de Ariana Gomes é marcada pela superação de desafios e por um profundo senso de pertencimento. Formada em Serviço Social e mestra em Antropologia, ela defendeu a dissertação “Coco e cocar: lutas, resistências e identidades compartilhadas das indígenas e quebradeiras de coco Akroá Gamella em Viana, Maranhão”, trabalho que lhe rendeu o 7º Prêmio Emanoel Gomes de Moura de Teses e Dissertações da Uema.

A decisão de ingressar no mestrado foi motivada por uma “revolta interna” contra a percepção da academia como um espaço elitista e opressor. “Eu tinha, e ainda tenho, esse olhar de que a academia [é um espaço] de colonizador, de opressão”, confessa. No entanto, seu trabalho buscou trazer à tona a memória e as vivências das mulheres, dando voz às suas lutas e questionando a negação de identidades múltiplas, sejam elas indígenas ou quebradeiras de coco.

Identidade como ferramenta de luta e resistência

Para Ariana, a multiplicidade de identidades não é um problema, mas uma força. Ela questiona o olhar do Estado, que tende a essencializar as identidades em “quadrados”, ignorando a complexidade e a fluidez das vivências. “Se tu é indígena, é só indígena. Se tu é quilombola, é só quilombola”, critica, ressaltando que as políticas públicas, nesse sentido, podem ser violentas e racistas.

A pesquisadora enfatiza a importância de registrar a memória das quebradeiras, que lutavam pela terra e pelos babaçuais muito antes de processos recentes de autoidentificação étnica. “Elas diziam: ‘mas o que a gente fala aqui não serve, porque ninguém escreve, e se não escreve, a gente não vai ser lembrado’”, relata. A dissertação de Ariana busca justamente romper esse silenciamento, utilizando autores que, assim como ela, vêm das comunidades e compreendem a realidade em sua essência.

O olhar de ganância versus o saber ancestral

A industrialização do coco babaçu também é vista com preocupação por Ariana. Ela alerta para o risco de o babaçu ser explorado com um olhar de ganância, desconsiderando o saber ancestral das quebradeiras e a relação de reciprocidade com a palmeira. A produção de sabão em larga escala, que explora a mão de obra das quebradeiras, e a possibilidade de patenteamento de produtos como o óleo e o mesocarpo, são exemplos desse risco.

“Esse olhar de uso do babaçu como um produto que vai gerar lucro não é o mesmo olhar das quebradeiras”, afirma. Ariana defende que o babaçu é um bem comum, a ser utilizado de forma coletiva e sustentável, respeitando a relação intrínseca entre as mulheres e a palmeira que lhes dá vida e identidade.

Fonte: www.brasildefato.com.br

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