A Ascensão Global e Nacional do Neonazismo
O neonazismo, longe de ser um fantasma do passado, ressurge com força em diversas partes do mundo, adaptando-se às novas realidades socioeconômicas. No Brasil, os primeiros registros de células neonazistas datam da década de 1980, impulsionados pela conjuntura de instabilidade política e econômica da redemocratização, além de influências internacionais. Estudos apontam para um crescimento exponencial nesse período, com grupos voltados para a disseminação do ódio contra minorias. A internet se tornou um terreno fértil para essa ideologia, com um aumento drástico no número de sites, fóruns e blogs dedicados ao tema.
Santa Catarina: Um Epicentro de Preocupação
As pesquisas mais recentes indicam que o Sul do Brasil abriga a maior concentração de células neonazistas ativas, com Santa Catarina se destacando como o principal polo. Mais de 300 grupos operam no estado, o que representa uma parcela significativa do total nacional. Esse cenário não é isolado, refletindo uma tendência mundial de recrudescimento da intolerância política e da disseminação de ideologias de extrema-direita, visível em países da Europa, Japão, África do Sul e outras nações latino-americanas.
As Transformações do Capitalismo e a Precarização da Vida
A globalização e o neoliberalismo, com sua ênfase na flexibilização do trabalho e na informalidade, criaram um ambiente de insegurança e instabilidade para muitos trabalhadores. A precarização das condições de vida, a dificuldade em obter uma identidade profissional segura e a ausência de projetos de vida coletivos abrem espaço para o surgimento de fenômenos políticos regressivos, como o obscurantismo, o conservadorismo e a descrença na ciência e na democracia. A razão instrumental, a serviço da acumulação de capital, torna-se a única valorizada, em detrimento de um pensamento crítico e emancipatório.
Hipóteses para a Concentração da Extrema-Direita em Santa Catarina
Para compreender a proeminência de Santa Catarina na disseminação da extrema-direita, quatro hipóteses são apresentadas:
1. Concentração da Propriedade da Terra e Êxodo Rural
Apesar de historicamente conhecido pela pequena propriedade, o estado tem testemunhado uma redução significativa de unidades agrícolas familiares. Essa concentração agrária, aliada ao êxodo rural em direção às cidades, gera insatisfação e um sentimento de perda, que podem ser canalizados contra grupos específicos.
2. A Figura do Colono-Operário e a Baixa Sindicalização
A dualidade entre o trabalho no campo e a indústria, característica de famílias de pequenos colonos, historicamente resultou em uma menor identificação com a classe operária e, consequentemente, em menor participação em greves e movimentos sindicais. A perda do acesso à terra pode exacerbar o descontentamento.
3. Identidade Europeia e a “Tradição Inventada”
Santa Catarina se promove fortemente como um estado de matriz europeia, especialmente alemã. Essa autoimagem, reforçada por eventos e pela arquitetura, pode criar um senso de superioridade e exclusividade, onde a presença de minorias é vista como uma ameaça à identidade branca e europeia, alimentando o racismo e a xenofobia.
4. Abandono do Campo da Esquerda pelas Classes Médias
A análise do comportamento eleitoral revela uma migração consistente do eleitorado catarinense, especialmente das classes médias, do campo da esquerda para a direita. Percepções de que os governos de esquerda favoreceram os mais pobres e os mais ricos, negligenciando os interesses das classes médias, somadas ao temor da “perda” de privilégios e à valorização da meritocracia, contribuem para esse cenário.
Um Fenômeno Reversível
É crucial ressaltar que a ascensão da extrema-direita em Santa Catarina não é um fenômeno natural ou genético. As transformações estruturais e conjunturais apontadas criaram um terreno fértil, mas mudanças políticas e sociais podem, e devem, reverter esse quadro preocupante.
Fonte: www.brasildefato.com.br
