Samba-enredo como Ferramenta Política: Sociólogo Revela o Poder Oculto das Escolas de Samba na Luta pela Democracia

O Samba-enredo Vai Além da Festa: Um Grito pela Liberdade

Enquanto a memória popular frequentemente associa a resistência cultural à ditadura militar a nomes da Música Popular Brasileira (MPB), o sociólogo Rodrigo Antonio Reduzino, em sua tese de doutorado pela Unicamp, lança luz sobre o papel fundamental das escolas de samba nesse contexto. Segundo Reduzino, o samba-enredo não é apenas um componente do espetáculo carnavalesco, mas sim um poderoso enunciado político, capaz de expressar críticas e demandas sociais em tempos de repressão.

Censura, Repressão e o Apagamento da Cultura Negra

A pesquisa de Reduzino, que embasou o documentário “Enredos da Liberdade”, abrange a década de 1980, período que marca o fim do regime militar no Brasil. Ele destaca que, ao longo desse período, assim como em épocas anteriores, carnavalescos, compositores e membros das escolas de samba foram alvo de vigilância, censura e até mesmo prisões. O sociólogo ressalta que, para a população negra que constrói o carnaval, o racismo estrutural intensificou a violência do Estado, buscando silenciar suas vozes e expressões culturais.

O Jogo de Poder e o Mito da Democracia Racial

Reduzino também aborda a complexa relação entre as escolas de samba, o jogo do bicho e o poder público. Ele aponta que a associação de figuras ligadas à contravenção com as agremiações, especialmente durante a ditadura, serviu como um mecanismo para deslegitimar e controlar essas instituições. Além disso, o sociólogo critica o mito da democracia racial, forjado pela elite brasileira, que mascara as profundas desigualdades e violências perpetradas contra a população negra, inclusive por meio da repressão a movimentos culturais que desafiavam essa narrativa.

Desmistificando a “Adesão” à Ditadura

Ao analisar os enredos da década de 1970, Reduzino contesta a ideia de que as escolas de samba teriam sido majoritariamente adesistas ao regime militar. Sua pesquisa revela que, de um total de 140 enredos analisados, apenas quatro apresentavam um tom ufanista ou elogioso ao governo. Essa constatação, segundo o sociólogo, aponta para uma estratégia de estigmatização e marginalização das escolas de samba, visando diminuir sua importância e capacidade de contestação social e política.

Fonte: www.brasildefato.com.br

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