Falta de consenso e decepção marcam encerramento de encontro preparatório para COP 31 em Bonn
A 64ª sessão dos Órgãos Subsidiários (SB64) da Convenção do Clima (UNFCCC), realizada em Bonn, na Alemanha, encerrou-se com um clima de frustração entre os participantes. O encontro, que reuniu 194 países e a União Europeia, não alcançou consenso sobre propostas cruciais para mitigar e adaptar-se às mudanças climáticas. A ausência dos Estados Unidos já era esperada. Especialistas como Claudio Angelo e Stela Herschmann, do Observatório do Clima, descreveram a atmosfera como de “decepção” e “falta de confiança no processo multilateral”, onde “ninguém assumiu a culpa por nada”.
Financiamento climático e agenda para países em desenvolvimento adiados para a COP 31
As negociações sobre financiamento climático, incluindo recursos para mitigação, adaptação e sinergias, foram bloqueadas e adiadas para a COP 31, que ocorrerá na Turquia. Uma decisão importante da COP 30, a Decisão Mutirão, que visava estabelecer um programa de trabalho para atender à demanda de financiamento público dos países pobres para o combate à crise climática, foi ofuscada em Bonn, restando apenas uma força-tarefa para dar continuidade às discussões. Flávia Martinelli, especialista do WWF-Brasil, ressaltou a complexidade e as divergências de visões entre os países sobre esses temas, que são centrais para a agenda climática e a implementação de medidas adaptativas.
Pressão contra a ciência e metas climáticas de potências asiáticas sob escrutínio
Um ponto de tensão adicional foi a pressão para adiar a atualização de dados científicos sobre os impactos das mudanças climáticas, que serão apresentados na sétima versão (AR7) do IPCC, prevista para 2028. China e Índia, membros do G77, têm buscado atrasar essa publicação. Recentemente, a China revisou sua meta de redução de emissões de carbono para 2030, propondo uma meta menos ambiciosa do que a necessária para o cumprimento do Acordo de Paris. A Índia, por sua vez, apresentou metas atualizadas para 2030, que, embora mais ambiciosas que as anteriores, segundo o Climate Action Tracker, não resultarão em reduções reais de emissões. A Arábia Saudita também demonstrou resistência, opondo-se a menções ao El Niño e à atualização do IPCC.
Reação em defesa da ciência e avanço no mapa para o fim dos combustíveis fósseis
A tentativa de negligenciar a ciência provocou reações. A União Europeia e os Países Menos Desenvolvidos (LDCs) reafirmaram que “a ciência não é negociável”. Sivendra Michael, chefe da delegação de Fiji, destacou a existência de “interesses poderosos desesperados para proteger sua riqueza e sua influência”. Em contrapartida, um dos poucos avanços do encontro foi a atualização do trabalho para a criação de um mapa do caminho para o fim do uso de combustíveis fósseis. André Corrêa do Lago, presidente da COP30, informou que 115 países e 247 atores não estatais enviaram contribuições, um número considerado “acima do esperado”. O documento final deverá ser lançado em Belém antes da COP 30.
Fonte: www.brasildefato.com.br
