Redução da jornada de trabalho ganha força no debate nacional
A discussão sobre a diminuição da carga horária de trabalho no Brasil ressurge com força, impulsionada por um sentimento social crescente de valorização da vida para além do expediente. Segundo João Marcelo Pereira dos Santos, historiador e assessor da Central Única dos Trabalhadores (CUT/RS), o que antes era uma pauta restrita ao movimento sindical, hoje se consolida como uma demanda popular com forte apoio e presença no Congresso Nacional. A última alteração significativa na jornada de trabalho ocorreu com a Constituição de 1988, que a reduziu de 48 para 44 horas semanais.
Pesquisas indicam amplo apoio popular à redução da jornada
Contrariando a narrativa de que o brasileiro trabalha pouco, dados recentes apontam o oposto, com milhões de trabalhadores cumprindo jornadas superiores ao limite legal. O historiador destaca que pesquisas revelam um apoio majoritário da população à redução da jornada e ao fim da escala 6×1, especialmente entre jovens e mulheres, que sentem de forma mais acentuada o peso da exaustão e da dupla jornada (trabalho remunerado e afazeres domésticos/cuidados).
Produtividade e custos empresariais: um debate complexo
Um dos principais argumentos contrários à redução da jornada é o potencial aumento dos custos para as empresas. No entanto, Pereira dos Santos contrapõe que experiências internacionais demonstram que a diminuição das horas trabalhadas pode, em muitos casos, melhorar a produtividade, uma vez que leva à reorganização de processos e à eliminação de desperdícios. Ele ressalta que o excesso de trabalho gera custos significativos com adoecimento, afastamentos e queda de desempenho, argumentando que reduzir a jornada é um investimento em saúde e produtividade a longo prazo. A tecnologia, embora tenha o potencial de aliviar a carga de trabalho, muitas vezes é utilizada para consumir o tempo livre dos trabalhadores, e os ganhos de produtividade gerados por ela não têm sido repassados à classe trabalhadora.
Combate à desigualdade e estímulo ao emprego
A redução da jornada de trabalho é vista como um importante mecanismo para promover maior justiça social e combater a desigualdade. A informalidade, segundo o historiador, é um problema estrutural que não se resolve com jornadas longas. Pelo contrário, a diminuição da carga horária pode, inclusive, estimular a criação de novos empregos, pois as empresas poderiam necessitar de mais contratações para manter os níveis de produção. A competitividade internacional, por sua vez, depende mais de fatores como infraestrutura, tecnologia e qualificação da mão de obra do que da duração da jornada. A mobilização social e a pressão sobre o Congresso Nacional, incluindo a análise do Projeto de Lei 1838/2026, são vistas como cruciais para avançar nesta pauta, que é considerada civilizatória e essencial para garantir condições dignas de vida em um contexto de profundas transformações sociais e tecnológicas.
Fonte: www.brasildefato.com.br
