Documentário ‘Cheiro de Diesel’ expõe ‘cheiro da ditadura na democracia’ com ocupação militar em favelas

Parceria nascida da militância e da dor

A parceria entre a cineasta Natasha Neri e a jornalista Gizele Martins para a realização do documentário ‘Cheiro de Diesel’ tem raízes profundas na militância e na vivência direta das violências do Estado em favelas. Martins, que nasceu e cresceu no Complexo da Maré, relata ter visto o Exército em suas próprias ruas e casas em 2014, durante a ocupação para a Copa do Mundo. Ela lamenta não ter amigos homens, negros e vivos de sua infância, devido aos assassinatos e desaparecimentos que marcaram sua juventude na comunidade. Neri, pesquisadora na área de justiça criminal e direitos humanos, também testemunhou os impactos da militarização ao dar aulas na Maré em 2014 e se aproximou de Martins em campanhas contra operações policiais.

O ‘cheiro de diesel’ como metáfora da violência

O título do filme, ‘Cheiro de Diesel’, evoca a experiência sensorial marcante da militarização. Segundo Neri, o nome vem da fala de um dos protagonistas, Vitor Santiago, que sentiu o cheiro do diesel enquanto era transportado em um tanque, ferido após ser baleado por soldados. Esse odor, descrito como enjoativo, tornou-se uma memória compartilhada por moradores da Maré e por jovens torturados em unidades militares. Martins complementa que esse cheiro, juntamente com o barulho dos tanques, remete a relatos da ditadura militar e ainda causa pesadelos, questionando a qualidade da democracia no país, especialmente com a persistência do barulho de helicópteros em operações policiais atuais.

Denúncia e busca por reparação

O documentário, que já recebeu prêmios no Festival do Rio, não se limita a denunciar a violência e os efeitos da militarização, mas também busca trazer a sensorialidade do processo para o espectador. As diretoras almejam pautar a censura de comunicadores comunitários e a ilegalidade do uso da justiça militar para julgar casos de violência cometidos pelas Forças Armadas. Martins enfatiza a necessidade de reparação territorial e critica a visão de que as favelas são inimigas da sociedade, afirmando que os moradores são parte da solução. O filme aborda a falta de reparação para as vítimas diretas da militarização e a ausência de investigações independentes e imparciais, muitas vezes arquivadas pela própria justiça militar.

A luta por justiça e democracia nas favelas

O lançamento do filme em 2 de abril é uma escolha simbólica, próxima à data do golpe militar de 1964 e à ocupação da Maré em 2014. As cineastas desejam que o filme sirva como um registro para que as violências não se repitam e para dar continuidade à luta por verdade, memória e reparação. Elas criticam a Lei 13.491, de 2017, que transferiu crimes cometidos pelas Forças Armadas para a justiça militar, dificultando a responsabilização e a reparação às famílias. O objetivo é dar visibilidade a esses casos e demandar a mudança na legislação, para que crimes sejam investigados e julgados na justiça comum, garantindo o direito à democracia para as favelas e periferias do Brasil.

Fonte: www.brasildefato.com.br

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