Memória Viva na Praça de Maio
Dezenas de milhares de argentinos se reuniram em Buenos Aires nesta terça-feira (24) para marcar os 50 anos do golpe de Estado que deu início a uma sangrenta ditadura militar. A manifestação, que percorreu o trajeto entre a Praça de Maio e a Avenida 9 de Julho, reafirmou o lema “Nunca mais”, que ecoou por gerações, e expressou repúdio ao período de repressão. Em um ambiente de celebração da resistência, balões brancos com fotos de desaparecidos foram soltos, simbolizando a busca contínua por justiça.
A Luta Contra a Revisão Histórica
A marcha ocorre em um contexto de forte tensão política, com o governo do presidente de extrema-direita Javier Milei buscando revisar a narrativa histórica sobre a ditadura. Enquanto órgãos de direitos humanos estimam que o regime deixou cerca de 30 mil desaparecidos, o governo atual minimiza esse número, sugerindo que foi uma “guerra” entre dois lados e que houve “excessos” de ambos. A Casa Rosada divulgou um vídeo que critica uma suposta “visão enviesada e revanchista” sobre a história, utilizada pela esquerda como “instrumento de manipulação”.
O Legado das Avós e a Busca por Verdade
As Avós da Praça de Maio, símbolo da luta pela recuperação da identidade de crianças sequestradas durante a ditadura, restituíram a identidade de 140 netos que foram levados ainda bebês ou nasceram em cativeiro. Estima-se que mais de 300 ainda precisem ser encontrados. A presidente da associação, Estela De Carlotto, ressaltou que cada restituição é uma prova das atrocidades cometidas pelo “terrorismo de Estado”, incluindo desaparecimentos, assassinatos, roubos e sequestros de menores. O golpe cívico-militar de 1976 derrubou Isabel Perón e governou a Argentina até 1983, deixando um rastro de desaparecimentos, torturas e exílios forçados.
A Condenação da Ditadura e os Desafios Atuais
Apesar das tentativas de revisão, a condenação à ditadura militar permanece forte entre a maioria da população argentina. Um estudo recente indicou que sete em cada dez argentinos condenam o regime. Ao longo de mais de 350 julgamentos, 1.208 pessoas foram condenadas, mas mais de 300 casos ainda estão em aberto. A descoberta recente de restos mortais de 12 pessoas em um antigo centro de detenção clandestino em Córdoba reforça a necessidade de aprofundar a busca por justiça e verdade. Jornalistas que viveram a repressão, como Miriam Lewin, relatam as atrocidades e a importância de manter a memória viva para que tais horrores nunca se repitam.
Fonte: www.cartacapital.com.br
