Feira da Vivi em Porto Alegre une economia solidária, arte e combate ao feminicídio com Banco Vermelho

Cultura, Renda e Conscientização na Praça do Tambor

A Praça do Tambor, no centro histórico de Porto Alegre, foi palco neste sábado (21) da Feira da Vivi, uma iniciativa do Sindicato dos Bancários de Porto Alegre e Região (SindBancários). O evento, realizado há três anos em memória de Virgínia Faria, bancária da Caixa Econômica Federal que faleceu em decorrência da Covid-19, celebrou a economia solidária, a diversidade cultural e promoveu debates cruciais sobre feminicídios no Rio Grande do Sul.

A feira reuniu bancárias, familiares e convidadas que expuseram produtos autorais, evidenciando a força e a resiliência de mulheres que conciliam múltiplas jornadas de trabalho com suas expressões artísticas e culturais. Apresentações de música, dança e poesia falada, com a participação de artistas como Roberta Moura, Preta Guedes e Mica, do slam, animaram o público. “A Feira da Vivi é esse espaço de encontro, de arte, de comercialização, mas também de visibilidade e conscientização”, ressaltou Sabrina Muniz, secretária-geral do SindBancários.

Banco Vermelho: Símbolo de Luta Contra o Feminicídio Ganha Espaço

Um dos pontos altos da edição foi a instalação de um Banco Vermelho na Praça Brigadeiro Sampaio. A iniciativa, parte de uma campanha internacional de conscientização sobre feminicídios, visa alertar para a violência contra a mulher. Denise Argemi, advogada e integrante do Conselho Estadual dos Direitos da Mulher, explicou que o projeto, originário da Itália, busca, além do impacto visual, promover formação e capacitação sobre os diversos tipos de violência contra as mulheres. “O banco vermelho é um mobiliário urbano que chama atenção, mas ele não basta por si só. Por trás da instalação, há todo um trabalho de formação e capacitação”, pontuou Argemi.

O feminicídio é visto como o ápice de um ciclo de violências que inclui assédio moral, sexual e outras agressões. A campanha tem se expandido por diversas cidades do Rio Grande do Sul, com novas instalações previstas para março. Marivane Anhanha Rogério, vice-presidenta da Associação Comunitária do Centro Histórico, celebrou a realização da feira em um espaço tão simbólico para a cidade, destacando seu papel na promoção da convivência e harmonia, e o potencial do Banco Vermelho para o acolhimento e debate sobre a violência de gênero.

Feminicídios no RS: Um Cenário Alarmante e a Luta pela Visibilidade

Dados alarmantes foram apresentados durante o evento: em 2025, o Brasil registrou 1.568 feminicídios, e no Rio Grande do Sul, já são 23 casos em 2026. A roda de conversa abordou a necessidade de garantir direitos, autonomia econômica e valorizar a cultura para combater a violência. “A luta das mulheres é coletiva. Ela passa pelo enfrentamento à violência, pela garantia de direitos e pela construção de um mundo onde possamos viver, e não apenas sobreviver”, afirmou Sabrina Muniz.

Kelly Quirino, primeira mulher negra eleita representante dos funcionários no Conselho de Administração do Banco do Brasil, trouxe à tona a crueldade e a barbárie dos crimes, além do impacto devastador sobre crianças órfãs. Ela também ressaltou a interseccionalidade das violências, com mulheres negras enfrentando camadas adicionais de opressão devido ao racismo estrutural. “Se não morremos pelo feminicídio, morremos mais cedo pelas múltiplas violências que atingem o corpo da mulher negra”, alertou Quirino, que defendeu a discussão sobre masculinidades, letramento de gênero e políticas públicas interseccionais desde a infância.

Mulheres Negras Invisibilizadas e o Perigo das Redes de Ódio

Isis Garcia, diretora de base do SindBancários e secretária de Combate ao Racismo da CUT, questionou a invisibilidade das mulheres negras nas estatísticas de feminicídio, apontando uma seletividade na comoção pública. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública indicam que, entre 2021 e 2024, mulheres negras representaram 62,6% das vítimas de feminicídio no Brasil. “Se não mostramos esses rostos, as mulheres negras continuam sendo descartáveis”, declarou Garcia, reforçando a necessidade de lutar por direitos e visibilidade.

Sandra Chaves, diretora do SindBancários, alertou para a disseminação de ódio por grupos virtuais como Red Pill, Black Pill e Incels, que instigam violência contra as mulheres. Ela defendeu a regulamentação das redes sociais para coibir discursos de ódio e a importância de políticas públicas que combatam a misoginia e a violência desde cedo.

Economia Solidária e Empoderamento Feminino em Destaque

Empreendedoras como Juliana Santos da Silva (Use Seu Poder), Daiane dos Santos (Adai Biju) e Ana Mack (designer de biojoias) compartilharam suas trajetórias, evidenciando como a economia solidária e o artesanato se tornam ferramentas de autonomia, expressão criativa e resistência. Para elas, a feira representa um espaço fundamental para fortalecer redes de apoio, autoestima e empoderamento feminino, especialmente em comunidades periféricas, além de valorizar a cultura afro-brasileira e a luta contra o patriarcado.

Desaparecimento de Wueslen: Visibilidade para Famílias em Angústia

O evento também cedeu espaço para a manifestação da família de Wueslen, jovem desaparecido há 43 dias. Sua mãe, Miriam Ferreira de Assis, relatou a angústia e a dificuldade em obter informações para as buscas. O caso de Wueslen se soma aos 7.611 desaparecimentos registrados no Rio Grande do Sul em 2025, evidenciando a urgência de políticas públicas eficazes para lidar com essa triste realidade.

Fonte: www.brasildefato.com.br

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